FELICIDADE
Começo o ano de 2026 re-estreando a peça que faço com meus pais. Eu, minha mãe e meu pai no elenco. Meu irmão faz a luz da peça. Somos uma família de artistas que trabalham incansavelmente. Podemos pagar para trabalhar, isso é um luxo. Diz minha mãe. É um luxo poder ter dinheiro para poder escolher no que se vai trabalhar. Mas é importante que vocês trabalhem. Dizia minha mãe durante nossa infância, minha e do meu irmão. Nessa infância, tínhamos um carrinho em que cabíamos os dois, lado a lado. Me lembro da gente brigando, implorando pra ver neve algum dia, descobrindo as ruas e as esquinas juntos ali. Quase gêmeos a bordo. Hoje mais cedo tivemos uma briga estúpida e nos desculpamos, nos abraçamos. Por conta própria, nem minha mãe nem meu pai tiveram de dizer: “peçam desculpas e deem um abraço”. Foi da nossa profunda vontade. E passou. E cansados, vamos em frente, com fôlego de fazer a arte e a vida acontecerem de uma maneira mais delicada, menos brutal, menos espetada. É um exercício que temos de fazer, nessa família casca grossa que atravessou tanta densidade do ar nos anos passados. É nossa falha trágica: cuspir fogo em defesa do que acreditamos. Não deitar pra desrespeito. Buscar uma rota nova. Me vejo começando esse ano nisso: nessa insistência teimosa hereditária e que também quero passar adiante quando for mãe.


Que coisa mais linda, Dora 🤍