SING SING
Duas linhas paralelas que se influenciam, mas nem sempre se conversam: processo e obra. A ideia da ética é que a obra esteja contida no processo, porque a maneira como ela é feita é que importa. SING SING é o primeiro filme a estrear ao mesmo tempo nos cinemas e nos presídios. Queria que tivesse um documentário sobre os detentos assistindo pra ver o impacto que um trabalho desse pode ter ali dentro.
Algumas imagens do filme são de fato os testes que foram realizados pelo elenco. Ver escrito “como ele mesmo” nos créditos é emoção. Além da delicadeza com a qual a disciplina e a seriedade da brincadeira do teatro são retratadas. Nada sobra.
Os diálogos são precisos e demoram um pouco a chegar no filme. Tão bom poder contar com uma história que não tem pressa de ser contada, de não ter feito o pacto de acontecerem mil coisas pra não nos distrairmos daquilo.
É simples, mas o simples é muito difícil.
Uma conversa na janela entre duas pessoas na prisão: uma recebeu condicional, a outra não. Os atritos todos existem e estão dados, de bandeja. O que um indivíduo pode fazer diante disso, a partir disso, dentro de um coletivo? Talvez sonhar. Assumir suas masmorras. Estar ali sem ataque e sem defesa, desarmado.
A equipe inteira ganhou o mesmo valor para trabalhar ali. Isso desmistifica o que costumamos ver nas produções: que todo mundo é essencial para que a arte aconteça, mas os pesos variam. Os valores variam muito, também. É discrepante e muitas vezes indigno. Esse filme fala muito sobre a recuperação da dignidade através da humanidade de cada um. De poder perder as estribeiras sem se condenar por isso, quando todo o resto condena e julga e determina e aniquila. Exercitar uma vida artística é poder reivindicar justiça, dentro de uma realidade que faz de tudo pra impedir essa vida dentro dela
.


